
Fim de ano e começo de temporada costumam ser períodos diferentes na rotina de quem corre. O calendário fica mais leve, o clima muda, as metas ainda estão distantes e, muitas vezes, o corpo pede uma pausa do ritmo acelerado dos ciclos de treino. Nesse contexto, surge uma proposta simples e poderosa: correr sem relógio, guiado apenas pela percepção de esforço.
Abrir mão momentaneamente de pace, frequência cardíaca e alertas sonoros pode parecer estranho em um esporte cada vez mais orientado por dados. Mas justamente por isso, esse tipo de treino ganha valor. Ele ajuda o corredor a reconectar sensação e movimento, algo que muitas vezes se perde ao longo do ano.
O que significa correr por percepção de esforço
Correr por percepção não é correr “sem critério”. Trata-se de usar sinais internos como respiração, sensação muscular e conforto geral para regular o ritmo. Em vez de olhar para o pace no pulso, o corredor se pergunta: “consigo conversar?”, “estou confortável?”, “esse ritmo é sustentável?”.
Nos treinos leves, a ideia é manter um esforço realmente fácil, mesmo que o pace final pareça mais lento do que o habitual. Já em treinos moderados, a referência passa a ser a estabilidade do esforço ao longo do tempo, e não números cravados por quilômetro.
Benefícios de se desconectar da tecnologia por alguns treinos
Um dos principais ganhos é reduzir a ansiedade associada aos números. Muitos corredores transformam treinos leves em sessões mais duras do que o necessário porque o relógio “cobra” um ritmo específico. Sem essa pressão, o corpo tende a se autorregular melhor.
Outro ponto importante é o desenvolvimento da consciência corporal. Aprender a reconhecer quando o esforço está subindo demais ou quando ainda há margem para manter o ritmo é uma habilidade essencial, especialmente em provas longas. Correr sem relógio ajuda a treinar exatamente isso.
Além disso, há um impacto positivo na recuperação. Em períodos de calor intenso ou fadiga acumulada, o corpo responde melhor quando o ritmo é guiado pela sensação real, e não por metas rígidas que desconsideram o contexto do dia.
Por que isso faz sentido no fim e início de ano
Essa época costuma reunir fatores que alteram o desempenho: calor mais intenso, mudanças na rotina, menos regularidade de sono e até variações na alimentação. Usar o relógio como referência absoluta pode levar a frustrações desnecessárias.
Ao optar por alguns treinos sem tecnologia, o corredor respeita melhor essas variáveis. O foco deixa de ser “bater pace” e passa a ser manter constância, algo muito mais relevante nesse período de transição entre temporadas.
Também é um momento ideal para treinos realmente leves, de base aeróbia, que sustentam a evolução ao longo do ano seguinte. E esses treinos funcionam melhor quando são feitos com conforto genuíno.
Isso não é abandonar o relógio, é usar melhor
Vale reforçar que a proposta não é eliminar a tecnologia do treino, mas recolocá-la no lugar certo. Relógios, métricas e plataformas são ferramentas valiosas, especialmente em treinos específicos, testes e provas.
O problema surge quando o corredor se torna dependente dos números e perde a capacidade de sentir o próprio corpo. Inserir um ou dois treinos semanais sem relógio ajuda a equilibrar essa relação e torna o uso da tecnologia mais inteligente no restante da semana.
Uma prática simples que melhora o corredor
Correr sem relógio devolve algo essencial ao esporte: a escuta do corpo. Em um momento do ano em que o objetivo principal deveria ser manter o movimento, preservar a saúde e preparar terreno para ciclos mais intensos, essa prática faz ainda mais sentido.
Menos cobrança, mais sensação, mais consciência. Às vezes, tirar o relógio do pulso é exatamente o que faltava para correr melhor.