Correr mais e comer mal pode aumentar risco de lesão e piorar sua maratona

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Um estudo recente feito com mais de mil participantes da Maratona de Boston reforçou algo que treinadores e nutricionistas esportivos vêm observando há anos. Corredores com baixa disponibilidade energética, quadro conhecido como LEA, tiveram pior desempenho e apresentaram risco muito maior de precisar de atendimento médico durante a prova.

Quando o corpo começa a “desligar funções”

A baixa disponibilidade energética acontece quando o organismo recebe menos calorias do que precisa para sustentar treinos, recuperação e funções básicas do corpo. É como tentar manter um carro de corrida funcionando com combustível insuficiente.

O problema é especialmente comum entre corredores de longa distância. Quem roda 60, 80 ou até mais de 100 km por semana gasta enormes quantidades de energia, e muitas vezes não percebe o quanto precisaria comer para sustentar esse volume.

Com o tempo, o corpo começa a economizar energia onde consegue. A recuperação piora, a disposição cai e o rendimento nos treinos começa a oscilar. Em casos mais prolongados, o quadro pode evoluir para a síndrome RED-S, ligada à deficiência energética relativa no esporte.

Além da queda de performance, esse estado pode afetar densidade óssea, sistema hormonal, imunidade e até a saúde gastrointestinal.

Os sinais que muitos corredores ignoram

Nem sempre o problema aparece de forma óbvia. Em muitos casos, o corredor continua treinando normalmente, mas começa a acumular pequenos sinais de desgaste.

Entre os sintomas mais comuns estão:

  • Recuperação lenta após os treinos
  • Sensação constante de cansaço
  • Dores musculares prolongadas
  • Queda de rendimento nos treinos
  • Lesões recorrentes, principalmente por estresse ósseo
  • Alterações de humor e irritabilidade
  • Dificuldade para dormir
  • Baixa motivação para correr

Em mulheres, alterações menstruais também podem ser um sinal importante de alerta.

Outro detalhe que costuma enganar muitos corredores é que a fome nem sempre acompanha o aumento do gasto energético. Após treinos longos ou intensos, algumas pessoas sentem até redução do apetite, o que pode piorar ainda mais o déficit calórico.

O mito do “mais leve é mais rápido”

Durante muito tempo, a corrida alimentou a ideia de que reduzir peso corporal automaticamente melhora desempenho. Embora composição corporal possa influenciar a performance, transformar isso em obsessão costuma trazer mais prejuízo do que benefício.

A nova pesquisa mostrou justamente isso. Os corredores com sinais de baixa disponibilidade energética não apenas correram pior, como também tiveram mais complicações médicas durante a maratona.

Na prática, o organismo sem energia suficiente perde capacidade de sustentar intensidade, absorver carga de treino e manter estabilidade fisiológica ao longo da prova.

É por isso que hoje cresce entre treinadores a ideia de que “abastecer é mais importante do que pesar menos”. O corredor que consegue treinar bem, recuperar rápido e sustentar consistência normalmente evolui mais do que aquele que vive tentando cortar calorias.

O erro de negligenciar o pré e o pós-treino

Boa parte dos casos de subalimentação acontece por hábitos aparentemente simples. Pular refeições, sair para longões em jejum sem estratégia, ignorar o pós-treino ou reduzir carboidratos excessivamente são alguns exemplos comuns.

Treinos acima de 60 a 90 minutos aumentam bastante a demanda energética. Sem combustível adequado, o corpo começa a recorrer de forma exagerada às reservas internas, elevando desgaste e piorando a recuperação.

O pós-treino também faz enorme diferença. Muitos corredores encerram um treino forte e passam horas sem comer adequadamente. Isso reduz reposição de glicogênio e dificulta reparo muscular.

De forma geral, especialistas recomendam priorizar carboidratos e proteínas logo após os treinos mais exigentes, principalmente em períodos de maior volume semanal.

Alimentos simples já conseguem cumprir bem esse papel:

  • Iogurte com frutas e aveia
  • Arroz com proteína magra
  • Torradas ou pão com ovos
  • Salmão com arroz ou batata
  • Vitamina com frutas e proteína

Performance também depende de recuperação

Quem treina para meia maratona ou maratona costuma focar muito em planilha, pace e volume semanal. Mas a evolução acontece justamente na capacidade do corpo de absorver esses estímulos.

Sem energia suficiente, o organismo entra em modo de sobrevivência. A recuperação desacelera, a qualidade dos treinos cai e o risco de lesão aumenta.

Por isso, alimentar-se corretamente não é apenas uma questão estética ou nutricional. Faz parte do treinamento. Em muitos casos, comer melhor pode ser exatamente o que falta para voltar a evoluir nos treinos, recuperar a sensação de pernas fortes e sustentar constância ao longo da preparação.

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